Agora todos se queixam da crise, da maldita crise.
Pois bem, minha gente, a crise não existe. A crise é uma mera invenção das vossas cabeças fracas.
Desemprego? Existe, sim, muito pouca vontade de trabalhar. E queixam-se vocês de que os imigrantes vos ocupam os postos de trabalho. Como se os portugueses quisessem trabalhar no que os pobres dos imigrantes trabalham. Algum de vós, portugueses, quer ser trolha? Duvido muito.
Ao que vocês chamam crise eu chamo estupida ambição. Crise é não ter dinheiro para sustentar as necessidades essenciais à sobrevivência, como a alimentação, um lar e roupa para vestir. Mas os portugueses habituaram-se a um estilo de vida que não podiam ter, e adoptaram como necessidades básicas plasmas LCD, TVCabo's, grandes casas e carros topo de gama. E depois queixam-se que não há dinheiro. Se se limitassem a ter uma televisão de 30€ com apenas quatro canais, um Renault 5 (para não falar em transportes públicos, porque nem sempre é possivel) e um pequeno e barato apartamento não teriam de se preocupar com em créditos e prestações, e não diriam que nao têm dinheiro.
Há 40 ou 50 anos atrás, os nossos avós (no caso de quem tem mais ou menos a minha idade) criaram os nossos pais sem computadores, sem brinquedos falantes e sem Canal Panda. E isso não os impediu de serem felizes. Aí sim, existia crise, existiam empregos precários que para pouco mais do que alimentar a familia davam. E eles não se queixavam. Limitavam-se a viver com o pouco que tinham. Mas não é isso que faz esta nova geração. Querem o que não podem ter, são vaidosos, querem ser sempre melhores (ou melhor dizendo, querem ter sempre algo melhor) do que o vizinho do lado, e isso resulta em pagamentos em parcelas que duram uma vida.
E vocês dizem, "E tu, que estás para aí a falar?". Eu, meus caros amigos, tenho, na verdade, alguns luxos que considero completamente dispensáveis, mas não deixei de comer para os ter como meus.
Joana Verde
Talvez gostasse de ser uma árvore, talvez. Uma árvore das que duram seculos, das que assistem a guerras, das que presenciam a paz. Daquelas onde jovens se sentam a conversar, a ler um livro, a namorar, daquelas onde familias fazem piqueniques sob a sua sombra. Talvez gostasse de ser uma arvore, para ser (quase) eterna, para ver o tempo a passar, para ser (quase) sábia e (quase) perfeita. Mas para quê? Para quê ser uma arvore quando sou uma pessoa? Para quê querer uma vida quase eterna, quase, quando seria uma vida de solidão? Os seres humanos são a mais bela coisa á face da terra. Só eles, apenas eles podem ser alguma coisa, podem transformar-se livremente, sem metamorfoses, sem ciclos. Somos livres, amamos, odiamos, somos infelizes. Mas até a infelicidade é um sentimento. Alegrem-se os infelizes por estarem vivos.
Joana Verde
Já não me importo
Até com o que amo ou creio amar.
Sou um navio que chegou a um porto
E cujo movimento é ali estar.
Nada me resta
Do que quis ou achei.
Cheguei da festa
Como fui para lá ou ainda irei
Indiferente
A quem sou ou suponho que mal sou,
Fito a gente
Que me rodeia e sempre rodeou,
Com um olhar
Que, sem o poder ver,
Sei que é sem ar
De olhar a valer.
E só me não cansa
O que a brisa me traz
De súbita mudança
No que nada me faz.
Fernando Pessoa